Na terceira noite em que me reconheci coruja, bati três vezes o bico entre as penas antes de sair do buraco. Disseram que o tatu abandonou esse buraco e eu não acredito muito nisso. Antes de voar, entendi que está de madrugada porque tem uma sucupira do lado do buraco. Queria eu minha toca ser numa sucupira, mas sou do chão e isso é de família. A sucupira é roxa mas eu só vejo laranja. Disseram que é porque meu olho é cor de fogo… Eu nunca vi ninguém de olho roxo, mas acreditei. 

 

Já estou há muitos minutos pousada no galho seco. Não sei por que gosto tanto de acordar à noite, acho que também é de família. Por isso não sei quem é o dia. Quando saio do buraco tudo já é marrom e quando entro nele tudo ainda é marrom. Hoje eu quero ver o que acontece quando as estrelas acabam. Disseram que não tem céu de estrela quando a lua fica quente. Então elas devem cair. E os vagalumes devem comer todas ela, e… Será que por isso brilham tanto? Meus olhos também brilham e nem por isso são vagalumes. 

 

Os tetéus anunciam que o dia está chegando e eu me pergunto de onde ele vem. Será que existe um buraco pra ele também? Será que ele vem montado num besouro? E eu nem notei, mas a lua ficou quente. Digo isso porque as gotas da garoa estão secando. Pois então é isso que chamam de dia? É quando de repente tudo fica azul? Talvez seja sua forma de cumprimentar, e então eu respondo de cá: bom dia! Mas não tão alto. Acho que ainda estão dormindo… É uma pena. Estão perdendo de ver que a barra do dia é azul. Azul, azul. Me pergunto se meu olho ficou azul agora.