levante muito antes do corpo dourado se espalhar pelo chão. não deixe ninguém te ouvir. ninguém mais pode saber da armadilha. deixe o sereno envolver suas pernas, molhar a ponta dos seus dedos e esfriar seu nariz. mas não deixe ele te consumir por inteiro. para isso, preserve o quanto conseguir o calor da primeira luz vinda do alto, antes que ela ilumine todas as quinas do mundo. escute bem o que dizem os invisíveis e alados. escute com ouvidos gentis. é difícil entender a língua dos pequenos animais. ouça também o que dizem os troncos retorcidos das árvores pelas quais passar. se preciso, toque-os. mas não tão rápido. as formigas precisam saber que você as visita.  ouça os cascos, os bicos e as penas. ouça, sobretudo, a água fazendo seu passeio pela terra. não tema se estiver muito gelada, coloque a palma das mãos na superfície e sinta o palpitar do coração de lodo e lama do açude. perceba a forma que as algas tomam enquanto flutuam. se formam desenhos ou texturas estranhas, por favor, não alimente a estranheza.  lembre-se de que é pequena a respiração dos peixes. de que lagartos têm unhas. de que os morcegos ficam juntinhos. e de que tem mais vida embaixo das suas botas do que sua mente treinada imagina. ouça essa vida. a armadilha é um lugar silencioso para quem está acostumado só com o que escuta. para entrar nela, é preciso pedir licença. então não cometa a indelicadeza de não entender as cigarras, nem desanime se os pequenos animais fugirem de você. é necessário que fujam. mas não imagine que eles não continuam à espreita. apesar de seu vocabulário, leitor, armadilha para eles tem outro nome, e caminha sobre duas patas.